2 de mai de 2008

O poeta Torquato

Em dezembro de 1990, dois anos depois de formado o grupo, fomos convidados pela Biblioteca Pública de Brasília a fazer um trabalho fotográfico sobre a obra de Torquato Neto. Aceitamos encantados. A exposição chamou-se Os Ladrões de Alma na Noite do Vampiro Torquato. Abaixo, uma pequena amostra.

Conheça a obra de Torquato Neto em http://www.torquatoneto.com.br/



(almir israel)

mamãe mamãe não chore
a vida é assim mesmo
eu fui embora
mamãe mamãe não chore
eu nunca mais vou voltar por aí
mamãe mamãe não chore
a vida é assim mesmo
eu quero mesmo
é isso aqui

mamãe mamãe não chore
pegue uns panos pra lavar
leia um romance
veja as contas no mercado
pague as prestações
ser mãe é desdobrar
fibra por fibra
os corações dos filhos
seja feliz
seja feliz


(mamãe coragem -- fragmento)





(arthur lacerda)

minha senhora
onde é que você mora
em que parte desse mundo
em que cidade escondida
dizei-me sem demora
lá também quero morar

onde fica essa morada
em que reino, qual parada
dizei-me por qual estrada
é que eu devo caminhar


(minha senhora -- fragmento)





(sandro alves)


minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome do medo e muito
principalmente
da morte
olerê, la-lá






(marcelo feijó)

nada de mais:
o muro pintado de verde
e ninguém que precise dizer-me
que esse verde que eu
não quero verde
lírico
mais planos e mais planos
se desfaz
nada demais:
aqui de dentro eu pego
e furo a fogo
e luz
(é movimento)
vosso sistema protetor de
incêndios
e pinto a tela o muro diferente
porque uso como quero as minhas lentes
e filmo o verde,
que eu não temo o verde,
de outra cor...






(usha velasco)


agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda a palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.


(literato cantabile)


(cristina bastos)


quando eu nasci
um anjo muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco
torto, com asas de avião
e eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes:
vai bicho, desafinar
o coro dos contentes

(let's play that)
....................................


Participaram: Almir Israel, Arthur Lacerda, Cristina Bastos, Marcelo Feijó, Marcelo Luniére, Maria Helena Andrade, Rinaldo Morelli, Sandro Alves, Susana Dobal, Usha Velasco.

...

Nenhum comentário: